Expansão do turismo impulsiona novos empreendimentos, mas falta de profissionais preocupa empresários do setor
BARREIRINHAS – O crescimento acelerado do turismo em Barreirinhas, principal porta de entrada para os Lençóis Maranhenses, tem impulsionado investimentos em hotéis, pousadas, restaurantes, condomínios e infraestrutura urbana. No entanto, a expansão da construção civil na região enfrenta um desafio cada vez mais evidente: a falta de mão de obra.
O problema não é exclusivo do município. Um levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) aponta que a escassez de trabalhadores tem afetado diversos setores da economia brasileira, especialmente a construção civil. Segundo a mais recente Sondagem da Construção, 71,2% das empresas do setor relataram dificuldades para contratar profissionais qualificados, enquanto 39% afirmaram enfrentar muita dificuldade no processo de recrututamento.
Em Barreirinhas, empresários relatam dificuldades para encontrar pedreiros, carpinteiros, eletricistas, encanadores, armadores e mestres de obras. A situação tem provocado aumento nos custos das construções, atrasos em cronogramas e uma concorrência cada vez maior entre empresas pela contratação de profissionais experientes.
Para o engenheiro civil e especialista em Estruturas de Concreto Armado, Protendido e Fundações Mario Calheiros, a escassez de mão de obra é resultado de uma mudança geracional que ocorreu ao longo das últimas décadas.
“As principais profissões da construção civil, como pedreiro, carpinteiro e armador, eram atividades transmitidas de pai para filho. Com o aumento do acesso ao ensino superior e programas de financiamento estudantil, muitos pais passaram a incentivar os filhos a buscar outras carreiras, principalmente a engenharia. Isso reduziu gradativamente a formação de novos profissionais especializados nessas funções”, explica.
Segundo Calheiros, outro fator que contribuiu para o cenário atual foi a redução do interesse de parte da população por ocupações tradicionalmente ligadas aos canteiros de obras, o que diminuiu ainda mais a oferta de trabalhadores qualificados. Como consequência, os salários desses profissionais vêm registrando aumentos sucessivos. “Hoje, a mão de obra especializada está mais valorizada. A dificuldade para contratar faz com que o custo das obras aumente cada vez mais”, afirma o engenheiro.
Mercado imobiliário – O impacto dessa realidade também pode ser sentido no mercado imobiliário. De acordo com Calheiros, muitos consumidores investem na compra de terrenos em condomínios planejando construir a casa dos sonhos no futuro. No entanto, a escalada dos custos da construção pode transformar esse planejamento em um desafio financeiro.
“Muitas pessoas compram o lote acreditando que já estão mais próximas da casa pronta. Mas o terreno representa apenas uma pequena parte do investimento total. Quando chegar o momento de construir, daqui a alguns anos, elas poderão encontrar custos de mão de obra muito mais elevados do que os atuais. Logo, comprar uma casa pronta é um investimento mais inteligente, tendo em vista a escalada do custo da mão de obra”, alerta.
Quem também acompanha de perto esse cenário é Diogo Brandão, proprietário de uma empresa de consultoria e engenharia. Segundo ele, o aumento das demandas ligadas à gestão pública e à iniciativa privada evidencia o crescimento do potencial construtivo da região dos Lençóis Maranhenses.
“Por meio das demandas da gestão pública, a gente percebe que realmente tem ampliado bastante o potencial dessa área dos Lençóis, tanto na gestão pública quanto na privada. E, realmente, de fato, a gente tem um pouco de dificuldade em relação à mão de obra, geral mesmo”, afirma.
Brandão acrescenta que a escassez é percebida de forma recorrente por quem atua na região. “Observando que a gente sempre está rodando por aquela área dos Lençóis, a gente observa muito essa questão da deficiência de mão de obra”, completa.
Enquanto o turismo continua impulsionando a economia local, instituições públicas e entidades de capacitação vêm ampliando programas de qualificação profissional na região. Somente em 2025, centenas de moradores do Polo Lençóis e Delta participaram de cursos voltados para atender às demandas do mercado de trabalho.
Apesar dos esforços, especialistas avaliam que a formação de novos profissionais ainda não acompanha a velocidade do crescimento econômico registrado em Barreirinhas. A expectativa é que a pressão por mão de obra qualificada continue nos próximos anos, exigindo investimentos permanentes em capacitação para garantir que o desenvolvimento da cidade ocorra de forma sustentável.
“Com a consolidação de Barreirinhas entre os destinos turísticos de maior crescimento no país, o desafio será equilibrar a expansão dos empreendimentos com a disponibilidade de profissionais capazes de atender às demandas de um mercado cada vez mais aquecido”, analisa Pedro Salgueiro, da Granorte Incorporações, que também está investindo naquela região do Maranhão.
